Saiba tudo sobre os contratos autônomos e como eles movimentam o setor cripto



Quase todas as pessoas já estão familiarizados com aplicativos de celular e lojas de aplicativos. É só pesquisar, baixar o aplicativo desejado e pronto.

Por trás de todas as interfaces de usuário (ou UI, na sigla em inglês) e de experiências de usuário (UX) bonitinhas, esses aplicativos estão realizando um conjunto específico de instruções conforme apresentadas por seu criador. Pode ser um jogo, um calendário ou uma forma de comprar bens e serviços.

Os “contratos autônomos” ou “contratos inteligentes” (Do termo inglês “smart contracts”) do setor cripto desempenham uma função bem parecida.

Um contrato autônomo é,como diz o nome, um contrato — expresso como um pedaço de código — criado para realizar um conjunto de instruções.

A única diferença é que, com contratos autônomos, não existem intermediários. Não existe uma pessoa ou empresa guardando ou verificando suas informações. A blockchain verifica e guarda um registro para você.

Vitalik Buterin e a comunidade Ethereum acreditam que esse é o futuro da blockchain. Se o bitcoin (BTC) é o ouro do mundo comercial, contratos autônomos são o combustível que move o mundo comercial.

Como funciona um contrato autônomo?

Imagine que você vai comprar um carro on-line sem um contrato autônomo. Você precisa de:

– um site de listagem para guardar as informações sobre todos os carros que você gostaria de ver;

– uma forma de se comunicar com os vendedores;

– um sistema de pagamentos que permita que você troque dinheiro quando encontrar um carro;

– a condição de obter reembolso se o carro não estiver de acordo com o combinado;

– a necessidade de registrar a transferência da propriedade do veículo às autoridades.

Cada um desses pontos exige que você confie no site ou serviço que você está acessando e, em grande parte do tempo, cada parte desse processo é controlada por uma empresa ou pessoa diferente.

Não seria muito difícil para que uma pessoa ou organização mal intencionada mudasse qualquer um dos pontos acima, prejudicando todo o processo.

Um contrato autônomo remove a necessidade de confiar em muitas pessoas durante um processo de compra. Por quê? Contratos autônomos são:

Seguros: Utilizam criptografia para impedir que pessoas alterem registros.

Transparentes: Na blockchain, todos conseguem ver o que é o contrato autônomo e pelo que está sendo usado.

Livres de intermediários: Contratos autônomos não precisam de uma terceira parte que os verifique. A blockchain realiza essa tarefa.

Autônomos: Funcionam de forma automática, então não é necessário esperar que alguém aperte um botão.

Precisos: Já que contratos autônomos são escritos via códigos de programação, não dependem de áreas cinzentas de um idioma e do significativo de palavras.

“Se isso acontecer, faça tal coisa”

O centro de um contrato autônomo tende a ser um mecanismo que diz (em linguagem de programação): “Se isso acontecer, faça tal coisa”.

Isso já existe atualmente. Imagine que você queira pagar por algo usando um cartão de crédito. O software com o qual seu banco opera irá usar a frase menciona acima da seguinte forma:

– Se a quantia na conta bancária for maior do que a quantia solicitada, libere os fundos.

– Se a quantia na conta bancária for menor do que a quantia solicitada, não libere os fundos.

A diferença é que, com contratos autônomos, a blockchain é quem controla essa decisão em vez de um banco (ou um terceiro).

Assim, usando o exemplo acima e aplicando-o a um contrato autônomo criado em uma blockchain, o que acontece é o seguinte:

– Se a quantia na carteira digital for maior e ainda não tiver sido gasta, libere os fundos.

– Se a quantia na carteira digital for menor ou já tiver sido gasta, não libere os fundos.

A parte interessante sobre contratos autônomos é que qualquer pessoa pode entrar em um acordo com qualquer outra pessoa, pois a blockchain irá registrar tudo o que acontece.

Para que servem contratos autônomos?

Assim como contratos tradicionais, contratos autônomos foram criados para assegurar os termos de um acordo — sejam estes o câmbio de criptomoedas, direitos de tokenização, comprovação de identidade ou praticamente qualquer outra coisa.

Contratos autônomos são executados automaticamente quando condições pré-definidas forem atendidas. A operação de um contrato autônomo pode ser brevemente descrita com três termos principais:

Interconectividade: Geralmente, cada contrato autônomo tem um conjunto restrito de funções. Diversos contratos autônomos podem ser configurados para se conectarem entre si e formarem acordos mais complexos, também conhecidos como aplicações descentralizadas (dapps).

Objetos: São os signatários que interagem com o contrato autônomo e o(s) sujeito(s) que é(são) modificados pelo contrato autônomo com base em termos pré-definidos ou recém-apresentados.

Ambiente: Contratos autônomos dependem de um ambiente criptográfico. Garante que podem operar de forma segura e que o dado onde estão é imutável e, geralmente, transparente.

Para grande parte dos blockchains, o código dos contratos autônomos é imutável, apesar de diversas blockchains também serem compatíveis com contratos autônomos atualizáveis.

Quem criou contratos autônomos?

Assim como a tecnologia blockchain utilizada para operar grande parte das criptomoedas, contratos autônomos derivam de tecnologias iniciais que ainda não estavam finalizadas.

No caso de contratos autônomos, derivam de antigos programas de execução com instrução eletrônica que usavam lógicas de afirmações condicionais (“if/else”) para automaticamente produzir um resultado com base nas informações que lhe forem apresentadas.

O termo “smart contract”, em inglês, foi cunhado na década de 1990 em um artigo acadêmico de Nick Szabo, um importante cientista da comunicação e criptógrafo, também responsável por desenvolver Bit Gold, um dos primeiros precursores do Bitcoin.

Szabo havia descrito contratos autônomos para diversos propósitos básicos, como redução de fraudes e cumprimento de acordos contratuais, mas argumentou sobre os possíveis casos de uso da tecnologia para o dinheiro digital, propriedade autônoma e mais em um artigo publicado em 1996.

O Ethereum implementou uma linguagem Turing-completa em sua blockchain, permitindo uma lógica mais complexa e sofisticada em seus contratos autônomos.

Como dapps usam contratos autônomos

Aplicações descentralizadas (ou dapps) podem ser entendidas como vários contratos autônomos juntos.

Um único contrato autônomo só pode ser usado para um tipo de transação. Porém, uma dapp pode unir diversos contratos autônomos juntos para fazer coisas mais específicas.

Uma dapp também pode apresentar uma interface amigável acima de contratos — assim como dapps fazem atualmente.

Dapps de destaque

MakerDAO: Dapp de Finanças Descentralizadas (ou DeFi) permite que usuários realizem empréstimos com criptomoedas sem precisarem de intermediários.

Uniswap: Corretora desenvolvida no Ethereum que permite que qualquer um converta tokens de padrão ERC-20.

Axie Infinity: Jogo “play-to-earn” em que jogadores coletam e reproduzem monstrinhos, representados por tokens não fungíveis (ou NFTs), e os utilizam em batalhas.

Argent: Carteira Ethereum que utiliza contratos autônomos para abstrair conceitos, como endereços e chaves privadas.

Quem utiliza contratos autônomos?

Contratos autônomos são uma tecnologia relativamente nova, mas já foram amplamente implementadas — principalmente entre projetos puramente cripto.

Contratos autônomos estão no centro de toda a revolução DeFi e são usados em populares protocolos, como Compound, Aave, Uniswap e centenas de outras plataformas.

Mas também foram adotadas por diversas corporações e, até mesmo, alguns governos começaram a experimentar contratos autônomos. Alguns dos maiores exemplos incluem:

Ubisoft: Dentre suas diversas iniciativas blockchain, a gigante empresa de videogames criou contratos autônomos para fins específicos, permitindo que usuários possuam, transfiram e resgatem NFTs raros com base em sua popular franquia de jogos Rabbids.

ING: Cocriou Fnality, um sistema de liquidação comercial desenvolvido em blockchain usando contratos autônomos. Também envolve inúmeras outras iniciativas blockchain.

Governo sueco: Testou um registro de terras em blockchain para comprovar a propriedade de terrenos, que é criada nos contratos autônomos.

Contratos autônomos não são sempre perfeitos

Apesar de contratos autônomos serem geralmente considerados como uma forma de realizar acordos e lógica com uma “necessidade mínima de confiança”, não são completamente perfeitos.

Por um lado, contratos autônomos são imutáveis em muitas blockchains. Isso significa que, quando for iniciado, não podem ser alterados ou atualizados, o que pode resultar em consequências desastrosas se houver problemas implícitos com o código.

Talvez isso seja bastante destacado pelo hack à The DAO do Ethereum em 2016, que fez um hacker desconhecido roubar milhões em ether (ETH) ao explorar uma brecha na função de repartição da organização autônoma descentralizada (ou DAO).

Vetores de ataque novos e antigos também podem ser explorados, fazendo com que investidores percam dinheiro. Isso aconteceu em setembro de 2020, com o colapso da versão de testes de Eminence, um projeto criado por Andre Cronje, do Yearn Finance.

Foi invadido por um hacker desconhecido que roubou US$ 15 milhões após inúmeros investidores terem alocado seu dinheiro no protocolo.

Assim, um código mal programado pode fazer com que o contrato autônomo se torne inútil.

Esse foi o colapso do projeto DeFi de “yield farming” (estratégia de maximização de lucros) conhecido como YAM, em agosto de 2020, que usava contratos autônomos não auditados e foi afetado por uma falha crítica que tornou seu recurso de governança inútil.

Auditoria de contratos autônomos

Apesar de contratos autônomos terem sua segurança garantida pela tecnologia blockchain, também precisam ser seguros desde o início, já que determinados erros e funções em sua programação podem ser explorados.

Isso aconteceu diversas vezes no passado e continua sendo um dos maiores desafios para a sua ampla adesão. Apenas em 2021, US$ 1,3 bilhão foram roubados em hacks ao setor DeFi, segundo a empresa de segurança em blockchain CertiK.

No total, bilhões de dólares em ativos foram sugados de contratos autônomos sem segurança, incluindo o hack à Eminence e o hack de US$ 325 milhões ao projeto DeFi Wormhole em janeiro de 2022.

Para ajudar a minimizar esse risco, inúmeras empresas externas de desenvolvimento e segurança, como Mythx e ConsenSys Diligence, agora oferecem serviços de auditoria de contratos autônomos.

Envolve a avaliação do código do contrato autônomo para identificar vulnerabilidades que possam ser consertadas. Isso geralmente acontece antes de um contrato autônomo ser disponibilizado.

Dapps populares publicam seus contratos autônomos no rodapé de seu site, fornecendo confiança a usuários que não têm tempo ou conhecimento para verificar o código.

As principais plataformas de contratos autônomos por capitalização de mercado

Plataformas de contratos autônomos se tornaram um dos setores mais importantes da criptoeconomia. Dentre os dez principais criptoativos por capitalização de mercado (com base nos dados do site CoinMarketCap), três são plataformas de contratos autônomos, em que uma — Ethereum — só perde para o próprio Bitcoin.

Dentre elas, as dez principais plataformas têm uma capitalização combinada de mercado de US$ 484 bilhões neste momento:

Ethereum: Criado para funcionar como um “computador mundial” descentralizado, usado como uma plataforma onde dapps podem ser executadas.

BNB Chain: Blockchain de contratos autônomos desenvolvida pela corretora de criptomoedas Binance. BNB significa “Build ‘n’ Build” (ou “Criar e Criar”).

Cardano: Projeto de blockchain pública e de código aberto. Sua proposta de venda única (ou USP) garante que seja a primeira blockchain revisada em grupo do mundo, com uma rede de acadêmicos e cientistas que verificam seu protocolo antes do lançamento.

Avalanche: Plataforma de código aberto para primitivos financeiros e uma plataforma de dapps desenvolvida pelo Ava Labs.

O futuro dos contratos autônomos

Atualmente, grande parte das blockchains são compatíveis com contratos autônomos, com comunidades ativas de desenvolvedores que criam dapps usando contratos autônomos em blockchains, como Cosmos e Hyperledger.

O escopo das capacidades de contratos autônomos podem variar de muito simples, em redes como Bitcoin ou Litecoin, para blockchains mais avançadas para dapps, como Ethereum e Polkadot.

Ainda estamos nos primórdios em termos de possibilidades em que contratos autônomos e dapps poderão ser usados. Mas existem empresas e até mesmo governos que já estão experimentando seu potencial.

Agora, são usados para diversas tarefas, incluindo identidades digitais, gestão de cadeia de suprimentos, seguros, armazenamento de dados e muito mais.

*Traduzido por Daniela Pereira do Nascimento com autorização do Decrypt.co.



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