Juros estão para os ativos de renda variável assim como a gravidade está para os planetas


Pensando nisso, após passar pelo maior e mais expressivo aumento de juros da história, o qual já causa algumas distorções nos ativos de risco, o Brasil sofrerá a influência do aumento dos juros dos EUA, bem como os possíveis aumentos ainda necessários na taxa de juros interna no decorrer do ano de 2022.

Esse aumento de juros, que apesar de já ser esperado causou grandes quedas em diversos mercados, deverá ser antecipado conforme Ata do Federal Open Market Committee (FOMC) publicada no dia 05 de janeiro de 2022, juntamente com a redução das compras de títulos.

Importante frisar que no último dia 06 o mercado estipulava com uma probabilidade de 80% o aumento dos juros na reunião do FOMC que vai ocorrer em maio. Soma-se a isso a expectativa de um aumento de mais 1,5 pp para a taxa Selic na reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) que será realizada em fevereiro.

Dessa maneira, é primordial entender como a dinâmica dos juros afeta os ativos de renda fixa, mas principalmente a renda variável e as criptomoedas.

Primeiramente, com aumento dos juros os ativos pós-fixados, como é o caso do Tesouro Selic, apresentam maiores rendimentos e, os títulos prefixados passam a apresentar rendimentos negativos por conta da denominada marcação a mercado dos títulos, metodologia que visa atualizar os preços dos ativos pelo seu preço de mercado.

Importante lembrar que um aumento de juros apesar de ser benéfico para os investidores que detém ativos atrelados a ela, causa grande impacto na economia real, uma vez que aumentam o custo da dívida do país, o que para países emergentes traz muitas distorções e maiores níveis de incerteza, os quais desaguam nos juros futuros, como vem ocorrendo nos últimos meses.

Ativos de renda variável, ações e Fundos de Investimento Imobiliário

Partindo para os ativos de renda variável, ações e Fundos de Investimento Imobiliário, principalmente, existe uma dinâmica diferente e, até mesmo, mais complexa. No que diz respeito a ações, tem-se que seus valores são precificados para baixo por conta das métricas de valuation, mais especificamente aquelas ligadas ao método do Fluxo de Caixa Descontado.

Esse modelo tem como premissa a estimação do valor de uma empresa via seu custo de capital, buscando sempre estimar seu valor presente com base no caixa (dinheiro) que o negócio pode gerar no futuro.

Para que seja possível realizar a estimação, os analistas têm que descontar os fluxos de caixa futuros por uma taxa de juros, normalmente taxas mais longas, as quais sofrem forte influência da dinâmica macroeconômica de curto prazo.

Nesse sentido, um aumento de juros faz com que os valuations sejam revisados e empresas que antes apresentavam um preço alvo elevado, passam a apresentar preços menores.

Com essa constatação e, motivados pelo movimento de manada, os agentes tendem a sair de suas posições em ativos de risco e migram Os juros são o preço do dinheiro no tempo e, dessa forma, podem ser entendidos como a variável macroeconômica mais relevante, uma vez que delimita como os agentes alocam seus recursos.

para aqueles menos arriscados, culminando nas quedas dos valores dos ativos. Nesses cenários é primordial que o investidor mantenha a calma e busque informações relevantes a respeito de como anda o negócio em que ele está investindo.

Com isso em mente, caso nada tenha mudado no negócio, não faz sentido se desfazer de suas ações e, mais do que isso, são nesses momentos que aportes podem ser realizados, uma vez que no longo prazo a cotação tende a seguir os lucros.

Agora, quando se analisa as empresas de tecnologia e sua relação com os juros, principalmente os juros de 10 anos nos EUA, os investidores percebem que com uma taxa mais alta essas empresas que apresentam capital intensivo têm seus empréstimos recalculados, fazendo com que a dívida aumente e, consequentemente, a forma como eles veem seu valor na bolsa de valores muda, reduzindo seus preços no mercado.

Partindo para os Fundos de Investimento Imobiliário, a dinâmica é parecida, mas as suas relações com as taxas de juros são um pouco mais complexas, uma vez que existem tanto ativos ligados a imóveis quanto a papéis (Certificados de Recebíveis Imobiliários).

Como é possível notar na imagem abaixo, o IFIX (Índice de Fundos de Investimentos Imobiliários) tende a se movimentar de maneira divergente aos juros de curto prazo.

Fonte: Tradeview

Entretanto, quando pensamos em juros longos, como na imagem abaixo, onde se relaciona o DI com vencimento em 2031, a divergência se torna mais forte.

Fonte: Tradeview

Bitcoin e criptoativos

É claro que o Bitcoin e as criptos como um todo não poderiam ficar de fora dessa análise, uma vez que com a disseminação desses ativos até mesmo nos mercados ditos tradicionais via ETFs, como o BITH11, ETHE11 e HASH11 da gestora Hashdex e QBTC11 e QETH11 administrados pela QR Asset, sem contar outros negociados em mercados internacionais, suas dinâmicas passaram por algumas transformações.

Essas transformações estão relacionadas a percepção dos agentes em relação a alocação em criptos como parte de sua renda variável. Assim, os criptoativos sofrem muito com a forma como os investidores que iniciaram a pouco a jornada de investir nelas tendem a sair quando surgem informações macroeconômicas relevantes.

Nesse sentido, é importante notar que entre julho e dezembro de 2021, surgiu uma certa correlação entre o Bond de 10 anos norte americano e o preço do Bitcoin. Apesar de apresentar, nesse período, uma certa correlação com a dinâmica dos juros de 10 anos, desde o início de 2022, o Bitcoin passou por dias de queda, como é possível identificar no gráfico a seguir (Bitcoin linha azul e US 10 years linha laranja):

Fonte: Tradeview

Nesse contexto, principalmente nos últimos dias, a percepção de risco dos agentes após a divulgação de um aumento maior do que o esperado nas taxas de juros nos EUA ocasionam quedas em todos os mercados de risco. No Brasil não foi diferente.

É importante frisar que em solo pátrio a bolsa de valores já estava em patamares baixos por conta dos desdobramentos fiscais e do aumento da Selic, a qual atingiu o patamar de 9,25% frente a sua mínima de 2% durante o auge da pandemia.

Agora, o país sofre também com o aumento iminente dos juros dos Estados Unidos, visto que a taxa americana afeta os mercados globais, pois os Treasuries passam a render mais e por estarem denominados em moeda forte, atraem parte do capital que estava alocado em países emergentes.

Essa migração ocorre por conta do prêmio de risco, o qual estava elevado nos países emergentes e, com o aumento dos juros nos EUA, perdem a sua atratividade.

Independente das percepções do mercado, é primordial ao investidor buscar entender o que mudou nos ativos e, em caso de manutenção das características que o levaram a adicioná-los em carteira, não faz sentido sair de forma desenfreada.

Assim, da mesma forma que a gravidade nos puxa para o centro da Terra, os juros altos tendem a trazer os ativos de renda variável para patamares aquém daqueles que o mercado estipulava antes da alta nos juros, o que culmina em inúmeras divergências e assimetrias, as quais podem se tornar grandes oportunidades.

Sobre o autor

Gabriel Matos é especialista em investimentos CEA certificado pela Anbima, apaixonado por opções e tecnologia, opera no mercado de derivativos desde 2017.



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