Holders de longo prazo ‘alfaçaram’ e já venderam 181 mil bitcoins em junho, mostra Glassnode


Após um junho volátil e desafiador, o preço do bitcoin (BTC) começou a se consolidar próximo ao recorde de US$ 20 mil do ciclo de alta de 2017, dando aos investidores um momento de pausa e reflexão. O preço subiu mais na última semana, saindo de uma baixa de US$ 18.067 e chegando a uma alta de US$ 21.783.

Recentemente, o mercado de criptomoedas passou por um amplo evento de desalavancagem, fazendo com que muitos ativos sofressem uma extrema desvalorização, tanto no contexto histórico como estatístico.

Nos últimos dias, a Glassnode publicou dois artigos que fornecem uma análise detalhada sobre esse evento de desalavancagem, cobrindo tanto o mercado na rede do Bitcoin como na rede do Ethereum, fornecendo contexto adicional:

– “A Grande Desalavancagem DeFi” cobre a expulsão de mais de 60% da alavancagem acumulada no setor de finanças descentralizadas (DeFi) do Ethereum;

– “Um Mercado de Baixa de Proporções Históricas”, onde é explorado o desvio histórico do Bitcoin e do Ethereum de inúmeras médias no longo prazo.

Nesta edição, a Glassnode fornecerá uma avaliação sobre a possibilidade de um preço mínimo no mercado de baixa do bitcoin se formar na atual faixa de preço. Serão delineadas métricas técnicas “on-chain” (de dados da blockchain) técnicas e cíclicas. Também será avaliado se existe uma perda visível de convicção entre investidores, principalmente relacionada a holders a longo prazo.

Preço do bitcoin na vigésima sexta semana do ano (Imagem: Glassnode)

Traçando as quedas

Na última década, diversos modelos foram desenvolvidos, tanto de fundações técnicas como “on-chain”, em uma tentativa de encontrar os fundos dos mercados de baixa do bitcoin. Aqui, serão usados os fundos de mercado de 2015, 2018 e março de 2020 para fins de comparação e no esforço de tentar encontrar uma convergência entre os modelos.

Existem cinco modelos mostrados no gráfico abaixo, listados do mais alto para o mais baixo:

– 🔴 O múltiplo de Mayer de 0,6 (US$ 23.380) demonstra que o preço está sendo negociado com um desconto de 40% em relação à média móvel de 200 dias, em que apenas 3,4% dos dias de negociação fechando nesse nível ou abaixo.

– 🟠 Preço realizado (US$ 22,5 mil) é a base de custo total do fornecimento da moeda, geralmente fornecendo resistência durante a formação de fundos. 14% de todos os dias de negociação terminaram abaixo desse preço.

– 🔵 Média móvel de 200 semanas (US$ 22.390) historicamente forneceu suporte durante a fase final de capitulação do mercado de baixa e apenas 1% dos dias terminaram abaixo desse preço.

– 🟢 Preço equilibrado (US$ 17.980) que representa os dias de moedas destruídas e reflete um preço de mercado que combina o valor pago pelas moedas menos o valor realizado no fim das contas. Apenas 3% dos dias de negociação foram finalizados abaixo desse modelo.

– 🟣 Preço do delta (US$ 15.750) que se refere à diferença entre o preço realizado e uma média dos preços recordes. Esse nível nunca foi atingido no fechamento e forneceu um suporte final durante mercados de baixa.

No mercado atual, preços “spot” (US$ 21,3 mil) estão abaixo do preço realizado, da faixa de 0,6 do múltiplo de Mayer e da média móvel de 200 semanas e, recentemente, caiu abaixo do preço equilibrado durante as liquidações de 18 de junho, que fizeram o preço chegar em US$ 17,6 mil.

Em apenas 13 dos 4.360 dias de negociação (0,2%) houve circunstâncias parecidas, acontecendo em apenas dois eventos anteriores, em janeiro de 2015 e março de 2020. Esses pontos estão assinalados em verde no gráfico abaixo.

Modelos que definem preços mínimos nos mercados de baixa do bitcoin (Imagem: Glassnode)

A métrica do escore de tendência de acumulação continua voltando para altos valores acima de 0,9 ao longo do mês de junho. Isso está acontecendo porque entidades como “baleias” (que possuem acima de 10 mil BTC) e “camarões” (que possuem menos de 1 BTC) estão aumentando significativamente seu saldo em blockchain.

Nos últimos cinco anos, existem seis períodos com extensões similares, que entram em três categorias:

1. Ralis de preço em mercados de alta, como nos de 2019 e no primeiro trimestre de 2021, em que a nova demanda fez preços subirem com investidores iniciais vendendo;

2. Após a alta recorde em novembro de 2021, que é melhor descrita como compradores na baixa que, infelizmente, chegaram cedo demais;

3. Fundos em mercados de baixa, como os de novembro de 2018 e de março de 2020. São períodos em que a demanda de compra finalmente supera a oferta e criou um fundo macro significativo.

Escore de tendência de acumulação do bitcoin (média móvel de sete dias) (Imagem: Glassnode)

Baixas cíclicas

A métrica de risco de reserva também despencou para mínimos históricos. Essa métrica cai significativamente quando existe um excesso no comportamento de HODLers e na acumulação de “dias de moeda” no fornecimento. Isso indica que, apesar da séria ação de queda no preço em 2022, investidores de bitcoin como um todo continuam fiéis e não vão vender suas moedas (por bem ou por mal).

Tais quedas drásticas nessa métrica coincidem apenas com o fim do mercado de baixa de 2015 e com eventos de quedas súbitas em março de 2020.

Risco de reserva do bitcoin (Imagem: Glassnode)

De forma parecida, o fluxo de dormência atingiu uma baixa histórica (não estão sendo considerados os dados anteriores a 2011). Enquanto o risco de reserva analisa a acumulação dos dias de moeda (o comportamento dos HODLers), o fluxo de dormência considera a capitalização de mercado em comparação à destruição de dias de moedas (o gasto por HODLers).

Essa métrica sinaliza que, neste momento, a capitalização de mercado do bitcoin está bem baixa em comparação ao valor de dias de moedas destruídas. Em outras palavras, o ativo está sendo negociado abaixo do valor implícito e justo, dado o valor que HODLers estão liquidando.

Geralmente, esse é o caso quando as moedas mais velhas que estão sendo gastas são do ciclo atual (são antigas, mas não tão antigas assim). Essa ideia será retomada mais para a frente nesta análise. 

É possível interpretar, de forma pessimista, que estamos vendo um período de demanda historicamente baixa, que é simplesmente incapaz de absorver o fornecimento distribuído por investidores. A interpretação mais construtiva é que o mercado se estendeu demais para o lado negativo e está com preços incorretos em relação à convicção na base de detentores.

Fluxo de dormência do bitcoin ajustado por entidades (Imagem: Glassnode)

A experiência do investidor em fazer o HODLing de bitcoin há mais de um ano é de enfrentar alta volatilidade e, portanto, requer uma tese sólida e uma firme convicção para evitar ser abalado.

Com isso em mente, o último oscilador cíclico nessa sequência é a proporção realizada de HODL (ou RHODL), que captura o equilíbrio de saldo de riqueza relativo entre moedas que têm entre um e dois anos, e as que têm uma semana de existência.

Conforme a RHODL se aproxima de fundos macro, isso indica que o fornecimento de moedas está bastante dominado por esses investidores com mais experiência e de longo prazo.

Por outro lado, também existe uma enorme falta de investidores mais jovens e com menos experiência — algo que coincide com picos de mercado de alta no estágio final, quando a base de investidores está saturada pela demanda nova e com pouca experiência.

Proporção realizada de HODL (ou RHODL) de bitcoin (Imagem: Glassnode)

Além disso, é possível ver uma forte confluência entre o risco de reserva, o fluxo de dormência e a proporção RHODL, que sugere que o mercado continua dominado por fortes teses e investidores com alta convicção.

A hipótese da formação de fundos do bitcoin é fomentada pela dominância observável de investidores “mãos de diamante”, baixas historicamente significativas em inúmeros osciladores macro e uma forte convergência à medida que preços variam bem longe de diversos modelos de precificação do mercado de baixa.

Será que esses HODLers vão conseguir aguentar o tranco?

Formação das baixas

Existem diversas métricas que sinalizam que o mercado está no processo de formação de um preço mínimo doloroso, provavelmente melhor descrito como uma capitulação (desistência de ganhos pela venda de posições em épocas de queda) e entrada em um período de volta de acumulação.

A tendência geral de endereços ativos fornece um roteiro razoavelmente bom de progresso ao longo das diversas fases da estrutura de mercado do bitcoin. Impulsos otimistas são bem evidentes (cor verde) enquanto os mercados de baixa tendem a oscilar de forma lateral ou subirem enquanto o mercado se recupera.

Endereços ativos estão bastante constantes — em torno dos 800 mil por dia — e têm um intervalo limitado no canal do mercado de baixa (cor vermelha). Assim como notamos em outras edições, isso apoia a tese de que apenas os HODLers permanecem. Assim, o ano de 2022 está em um processo de correção de preços até o preço mínimo que sua demanda consegue definir.

Número de endereços ativos de bitcoin (média móvel de sete dias) (Imagem: Glassnode)

Preços mínimos de mercados de baixa anteriores despencaram em um fornecimento percentual em lucro de cerca de 40% para 45%. Em outras palavras, mais da metade do fornecimento de moedas estava desvalorizado. Durante a liquidação que fez o preço chegar a US$ 17,6 mil, o mercado atingiu um fornecimento em lucro abaixo de 50%, resultando em uma capitulação significativa e em um evento de redistribuição de moedas.

O resultado líquido dessa redistribuição é que um enorme volume de bitcoin foi negociado abaixo de US$ 20 mil. Se considerarmos 40-45% do fornecimento em lucro como um possível limite mínimo do mercado de baixa, até que ponto o preço deve cair agora para mergulhar um adicional de 5-10% do fornecimento no prejuízo?

Fornecimento percentual em lucro do bitcoin (Imagem: Glassnode)

No gráfico de URPD — distribuição de preço realizado de transações não gastas (UTXO) em bitcoin — abaixo, é possível ver que cerca de 1,43 milhão de BTC foi negociado entre a recente baixa de US$ 17,6 mil e o atual preço de US$ 21,6 mil.

Isso significa que após a recente redistribuição do fornecimento e do evento de capitulação, um novo teste dessas baixas colocaria uma quantidade equivalente do fornecimento em prejuízo assim como aconteceu em outras quedas durante mercados de baixa.

Distribuição de preço realizado de transações não gastas (UTXO) em bitcoin (Imagem: Glassnode)

A estrutura de mercado do lucro ajustado (aSOPR) também se assemelha a um profundo evento de capitulação em que o gasto médio de moedas estava realizando um prejuízo de -7%. A fase inicial e precedente do mercado de baixa pode ser utilizada para incluir meados de 2021 e todo o ano de 2022 (cor azul), que é similar tanto a 2018 como a 2019 em termos de estrutura.

Lucro ajustado (aSOPR) do bitcoin (média móvel exponencial de sete dias) (Imagem: Glassnode)

A confiança dos HODLers está abalada?

Ao longo do mês de junho, o fornecimento dos holders a longo prazo despencou em cerca de 181,8 mil BTC, fazendo o saldo total voltar aos níveis registrados em setembro de 2021.

Porém, isso é igual a apenas 7,16% do fornecimento que foi acrescentado entre março e outubro de 2021. Caso essa métrica caia ainda mais, sinalizaria ainda mais pressão de venda e uma possível deterioração da convicção por holders a longo prazo. No entanto, uma estagnação e até mesmo uma recuperação poderiam funcionar bastante contra essa hipótese.

Fornecimento total mantido por holders a longo prazo de bitcoin (Imagem: Glassnode)

Nesta seção final, a tentativa será avaliar se a convicção desses HODLers de bitcoin foi abalada, dado que são a linha final de defesa. Isso será feito ao estimar a “idade” das moedas sendo gastas com base nas seguintes teses:

Se os holders a longo prazo que estão gastando suas moedas são do ciclo entre 2021 e 2022, é bem mais provável que seja uma capitulação clássica, pois investidores estão armazenando moedas desvalorizadas em meio a uma enorme volatilidade e finalmente desistiram.

Se os holders a longo prazo que estão gastando são do ciclo anterior a 2020, é mais provável que reflita uma perda na convicção entre alguns dos investidores mais fortes e antigos no bitcoin.

Além disso, será investigado qual subsetor desses holders a longo prazo está fomentando a pressão de venda desses 181,8 mil BTC ao analisar as faixas sênior para dividir uma ponderação aproximada para cada grupo.

O gráfico abaixo mostra o fornecimento mais antigo que seis meses. Esse fornecimento caiu em 168,5 mil BTC em junho. Dado que o limite de holders a longo prazo é de cinco meses, isso significa que aproximadamente 13,3 mil dos BTC gastos existem há cinco ou seis meses, representando cerca de 7,3% do total.

Fornecimento de bitcoins que existem há mais de seis meses (Imagem: Glassnode)

Para moedas mais antigas que um ano, essa porcentagem cai de 65,72% para 64,93% do fornecimento em circulação, o equivalente a 150,7 mil BTC. Além disso, cerca de 9,8% do gasto por holders a longo prazo é atribuído a moedas que existem entre um período de seis meses e um ano.

Continuando a lógica, é possível ver que o gasto de moedas que existem há mais de um ano corresponde a aproximadamente 82,9% do BTC gasto por holders a longo prazo, que é a maior proporção dos gastos durante o evento de capitulação em junho.

Porcentagem do fornecimento de bitcoin movimentado pela última vez há mais de um ano (Imagem: Glassnode)

Porém, se considerarmos o fornecimento ativo pela última vez há mais de dois anos, é possível ver que se estabilizou próximo dos 44,5% do fornecimento em circulação desde abril de 2022. 

Assim, é possível afirmar que, dos 181,8 mil BTC gastos por holders a longo prazo, aproximadamente:

– 82,9% eram moedas que existiam entre um período de um e dois anos;

– 9,8% eram moedas que existiam entre um período de seis e doze meses;

– 7,3% eram moedas que existiam entre um período de cinco e seis meses.

Além disso, a conclusão é que a recente capitulação por holders a longo prazo foi quase que totalmente realizada por investidores do ciclo entre 2021 e 2022 e, provavelmente, representa um evento clássico de capitulação em vez de uma perda de convicção de investidores de bitcoin de longo prazo.

Porcentagem do fornecimento de bitcoin movimentado pela última vez há mais de dois ano (Imagem: Glassnode)

Conclusões

Na atual estrutura macroeconômica de mercado, todos os modelos e precedentes históricos provavelmente serão colocados à prova. Com base no atual posicionamento do preço do bitcoin em relação aos modelos históricos de baixa, o mercado já está em um nível extremamente improvável, pois apenas 0,2% dos dias de negociação registram circunstâncias similares.

Holders a longo prazo passaram por uma capitulação tardia, mas aparentemente clássica em junho, muito direcionada por investidores do ciclo entre 2020 e 2021.

Quase todos os indicadores macro do bitcoin, variando de técnicos para “on-chain”, atingiram quedas recordes, que coincidem com a formação de fundos em mercado de baixa de ciclos anteriores.

Muitos estão negociando em níveis com pontos percentuais de apenas um dígito do histórico anterior em níveis semelhantes. Isso se alinha com outros enormes desvios estatísticos de queda.

Com inúmeros sinais de formação de preços mínimos piscando, a pergunta é: a baixa dessa vez será diferente?

Sobre o autor

Glassnode é a maior provedora de dados e inteligência de blockchain que gera métricas e ferramentas on-chain para quem realmente quer entender o mercado de criptomoedas.

*Traduzido por Daniela Pereira do Nascimento com autorização da Glassnode.





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