Forjado na crise, Bitcoin enfrenta os desafios de primeira recessão global


O Bitcoin (BTC) foi criado durante a crise econômica global de 2008 e passou os últimos 13 anos visto como uma resposta àquele período. Agora, primeira vez em sua curta história, o Bitcoin vive um cenário global adverso para ativos financeiros de risco, como as ações, que já estão sofrendo um baque pela escassez de capital fluindo para os ativos mais estáveis.

A primeira grande exposição para o Bitcoin nos últimos anos aconteceu em março de 2020, quando aconteceu a crise do petróleo entre a Rússia e a Opep, reduzindo a oferta e provocando um choque de preço no petróleo global. Durante este evento, o Bitcoin perdeu 50% do seu valor.

Alguns podem argumentar que o Bitcoin sempre foi negociado como um ativo de risco. Isso faz sentido se você considerar que o Bitcoin está na fase de adoção inicial da curva S. Por muito tempo, havia muito pouca garantia de que o Bitcoin pudesse servir como uma reserva real de valor. Quem comprou Bitcoin nos últimos 10 anos fez uma aposta de crescimento, uma aposta de adoção, não uma aposta de reserva de valor.

Nesse sentido, o Bitcoin sempre esteve na categoria de ativos de risco e nunca como ativo de hedge. Por definição, ativos de hedge não sofrem de volatilidade extrema em seu valor, o contrário do preço do Bitcoin, que tem seu valor definido por diversos fatores como custo de produção, que varia de acordo com localidade, fornecimento de energia, custos políticos e de capital intensivo, além do fluxo de capital que alimenta o volume de negociações.

A diferença é que, à medida que os ativos de risco avançam, o Bitcoin está em sua trajetória de descorrelação com os ativos de risco tradicionais, que são basicamente liderados pelo mercado de ações dos EUA. Nos últimos dois anos vimos o Bitcoin sendo consistentemente correlacionado ao mercado de ações. Portanto, estamos em um período único em que o Bitcoin é negociado como ativos de risco tradicionais.

Fonte: Ecoinometrics

Desde o início da Pandemia, o Bitcoin segue correlacionado ao fluxo de capitais. Mas como o Bitcoin irá se comportar diante de uma recessão mundial

A crise atual foi gerada pelo excesso de dólar que foi injetado no mercado de capitais e na economia americana, durante a pandemia. Esse fluxo intenso de impressão, provocou a perda de valor do dólar e no primeiro momento, os investidores alocaram seus estoques de dinheiro no mercado de ações e o Bitcoin foi agraciado com esse alocamento de capital. Porém, segundo pesquisa do Bank Of America, a recessão já era sentida em 2020, e a pandemia acentuou os efeitos dela.

Fonte: BofA

Na mesma linha, esta não é a primeira vez que o Federal Reserve está aumentando as taxas desde que o Bitcoin foi criado. Do outono de 2015 ao verão de 2019, o Federal Reserve também aumentou as taxas, mas a situação econômica era bem diferente naquela época, sem a maior taxa de inflação dos últimos 40 anos como agora. Portanto, novamente, é difícil comparar esse período com o que estamos vivendo agora.  

Quais são os dois ativos mais próximos do Bitcoin? O mercado de ações e ouro. O S&P500 reúne o histórico de como os ativos de risco se comportam em todas as condições financeiras. O Bitcoin tem sido consistentemente correlacionado a este índice desde o início da pandemia de COVID. Assim, supondo que um alto nível de correlação se mantenha no futuro previsível, entender como o S&P500 provavelmente se comporta na condição atual pode ser usado para extrapolar como o Bitcoin se comportará.

No consenso global, o ouro é a reserva de valor de referência. Embora o Bitcoin e o ouro não mostrem sinais de correlação, é comum pensar em como o Bitcoin reagiria se se comportasse como uma reserva de valor. Somente no momento em que o Bitcoin for realmente reconhecido e usado como reserva de valor, na mesma proporção do ouro, veremos como ele se comportará. Por enquanto, a realidade é que o Bitcoin perdeu para ambos os índices nos últimos 6 meses.

Fonte: Tradingview

No regime atual, o Bitcoin claramente se comporta mais como mercado de ações do que como ouro. Ainda assim, não faz mal considerar os dois casos, mesmo que o primeiro cenário seja o mais provável.

O mercado de ações tem desempenho instável em momentos de crise e foi justamente o contrário que se assistiu nos últimos dois anos. Contudo, a retirada dos estímulos por parte do Federal Reserve (Fed), representou duro golpe para o mercado de risco, com a implementação de uma política fiscal mais leonina e de taxas mais altas e uma recessão vem gerando uma correção profunda nos mercados de ações. Somente depois que o pior da recessão econômica passar, os ativos de risco se recuperarão.

Se o Bitcoin continuar a acompanhar o mercado de ações de perto, esta será uma má notícia. O Federal Reserve está mais uma vez no caminho de aumentar as taxas e uma recessão está embutida nos dados econômicos, mas a hegemonia do dólar como moeda de referência e reserva de valor permanece intacta, segundo o historiador Niall Fergunson.

Para o ouro, as coisas são diferentes. Normalmente, o ouro sofre menos do que os ativos de risco durante esses tipos de eventos e também se recupera ou até prospera muito mais cedo. Isso é, em última análise, era o que se esperava do Bitcoin se ele se comportasse como uma reserva de valor.

Contudo, o Bitcoin ainda está na parte intermediária da curva de adoção. Isso significa que é mais provável que se comporte como o mercado de ações do que como o ouro no futuro próximo. Isso significa mais dor antes que as coisas melhorem.

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Fonte: cointelegraph.com.br