estúdio de Coppola cria plataforma blockchain para democratizar acesso ao financiamento de produções cinematográficas

Fundado por George Lucas e Francis Ford Coppola e responsável por clássicos de Hollywood como a trilogia “O Poderoso Chefão” e “Apocalypse Now”, o estúdio audiovisual norteamericano American Zoetrope está preparando o lançamento de uma plataforma blockchain para descentralizar as decisões relativas aos filmes que devem ser apoiados ou financiados pela empresa, informou reportagem do site The Defiant.

A Decentralized Pictures (DCP) é uma subsidiária do estúdio e está sendo planejada há quatro anos sob a liderança de Roman Coppola, roteirista e filho de Francis, Michael Musante, vice-presidente de produção e aquisições da American Zoetrope, e o ganhador do Emmy Leo Matchett. A ideia do trio é utilizar os recursos da tecnologia blockchain para promover o engajamento do público na seleção de filmes de diretores independentes que contarão com o suporte e a estrutura do estúdio. 

Nesse momento, a versão beta do aplicativo da Decentralized Pictures está sendo finalizado e em breve a rede de testes da sua plataforma blockchain será lançada.

Os testes estão sendo realizados em duas redes: na Ethereum e na Tezos. Os tokens da Decentralized Pictures vão se chamar FILMCredits e serão usados para o pagamento de taxas de inscrição e para recompensar os membros da comunidade, bem como para mineração e staking na plataforma. Outras funcionalidades ainda poderão ser adicionadas futuramente.

Curadoria coletiva

O processo seletivo da Decentralized Pictures compreende um ciclo que se inicia quando um cineasta submete um projeto à plataforma mediante o pagamento de uma taxa de inscrição em FILMCredits. Em geral, a concorrência se dará entre projetos agrupadados em categorias pré-determinadas. Os membros da comunidade que fazem a análise dos projetos serão pagos com FILMCredits mediante a quantidade e a eficiência de suas avaliações.

Porém, o algoritmo da blockchain da DCP não é programado para computar avaliações binárias e subjetivas. As avaliações são ponderadas mediante parâmetros diversos de análises críticas, e, mais importante, de acordo com a reputação conquistada pelo analista ao longo do tempo.

Basicamente, este sistema pretende recompensar aqueles que forem mais capazes de identificar ainda no papel potenciais filmes de sucesso. Trata-se de um processo curatorial em que a reputação dos analistas está permanentemente em jogo, assim como suas eventuais recompensas financeiras, sempre recolhidas na forma de FILMCredits.

Membros de destaque da indústria do cinema podem partir de um patamar mais elevado de reputação logo que ingressam na comunidade. Depois disso, no entanto, seu conceito será recalculado da mesma maneira que o de todos os outros usuários da rede.

Quando um filme é selecionado pela comunidade DCP, o cineasta recebe um prêmio em dinheiro para cobrir os custos de produção. Se não todos, ao menos uma parte deles.

O premiado também ganha acesso ao serviço de relações públicas da DCP, que buscará apresentar o cineasta a produtores e técnicos que se enquadrem no perfil do projeto a ser desenvolvido. Eventualmente, quando necessário, até mesmo auxiliando-os a encontrar fontes adicionais de financiamento.

Tais benefícios ajudam os cineastas inciantes a superar dois obstáculos muito comuns da indústria cinematográfica: dinheiro e conexões profissionais.

Em um primeiro momento, o modelo da Decentralized Pictures pode ser associado ao de campanhas de crowdfunding com uma pitada de marketing cripto. Na verdade, o princípio fundamental é exatamente o oposto. 

A DCP não solicita contribuições financeiras dos membros da comunidade para serem diretamente investidas na realização dos projetos. A empresa vai manter um fundo próprio permanente para financiar as produções escolhidas pela comunidade.

Manter registros transparentes e auditáveis da seleação e da distribuição de recursos na blockchain faz com que a Decentralized Pictures possa assegurar um processo democrático e transparente de financiamento e produção, conforme explicou Leo Matchett, CEO da DCP, ao The Defiant.

O que será de Hollywood?

Até muito pouco tempo a produção audiovisual – e em especial o cinema hollywoodiano – se estruturava em um sistema de castas. A própria dinastia dos Coppola, que inclui ainda a diretora e roteirista Sofia, filha de Francis e irmã de Roman, é uma evidência disso.

Qual será, então, a motivação por trás de um empreendimento como a Decentralized Pictures, cuja proposta parece ser justamente provocar a disrupção de um sistema que até então concedeu aos Coppola um status de nobreza no olimpo de Hollywood?

Embora tenha sido concebida como um empreendimento para a descoberta de novos talentos, as circunstâncias atuais fazem com que a DCP entre em operação no exato momento em que as receitas, que já vinham em queda há quase duas décadas, estejam ainda mais abaladas pelos efeitos da pandemia do coronavírus.

Assim, talvez a Decentralized Pictures possa ajudar Hollywood a descobrir que tipo de filme é capaz de levar as pessoas de volta ao cinema nos dias de hoje. Muitos acreditam que a indústria do cinema perdeu a conexão com o público mais jovem, em especial os millenials.

A opinião é corroborada por Marc van Holt, um estudante da USC que submeteu um projeto à fase de testes beta da DCP. O aspirante a cineasta nascido no Líbano disse à reportagem do The Defiant que o problema do cinema de Hollywood, hoje, é que ele não oferece mais uma gama variada de perspectivas sobre a arte cinematográfica.

Estará ao alcance da tecnologia blockchain revolucionar a relação do público com o cinema assim como o Bitcoin (BTC) pretende mudar a relação das pessoas com o dinheiro, tornando-as responsáveis por suas escolhas, cultivo e gestão?

O futuro do cinema

Matchett e Musante disseram ao The Defiant que a DCP quer congregar os amantes de cinema de todos os matizes para participarem ativamente da plataforma, ativando o princípio comunitário que é fundamental para qualquer projeto alcançar sucesso dentro da indústria de criptomoedas. 

Segundo eles, a DCP ambiciona lançar filmes de todos os gêneros, particularmente aqueles projetos que não se encaixem facilmente nos reconhecidos e desgastados padrões dos tempos áureos de Hollywood.

A comparação que ambos traçaram para projetar o futuro remete ao passado. Não apenas isso, evoca também o mais eminente representante do clã Copolla e a lenda em torno da realização de sua obra prima, no final dos anos 1970.

Apocalypse Now é um filme sobre a experiência dos norteamericanos no Vientã que rompeu com a tradição dos filmes de guerra ao narrar uma jornada alucinatória por campos de batalha, cujo foco está centrado na violência psicológica do combate e não em cenas de violência explícita.

O filme levou muito mais tempo para ser concluído do que havia sido previsto originalmente. Abandonado pelo estúdio, Coppola teve que botar dinheiro do próprio bolso para finalizá-lo. Com o tempo, Apocalypse Now tornou-se um dos grandes clássicos da história do cinema e gerou receitas que superaram em muito o investimento dispendindo em sua produção.

Shawn Robbins, analista da BoxOffice.com., disse ao The Defiant: “O conceito [da DCP] é intrigante e pode oferecer novas percepções sobre os interesses do consumidor”, mas, ao mesmo tempo, pondera que a logística talvez não seja tão simples quanto parece. “Especialmente por causa dos muitos milhões de dólares necessários para produzir, comercializar e distribuir um filme em escala global”, afirmou.

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Fonte: cointelegraph.com.br

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