‘Criptomoedas são moedas do diabo e devem ir para o inferno’, diz economista

“O mercado de criptomoedas, Bitcoin à frente, está virando pó”. Assim começa o texto escrito pelo engenheiro e economista José Carlos de Assis, publicado hoje no jornal O Estado de São Paulo. 

Profecia, ficção ou realidade? A resposta cabe à interpretação do leitor, mas o fato é que, para o autor, o Bitcoin (BTC) e as criptomoedas simbolizam todo o mal que ameaça recair sobre a humanidade nesses tempos de múltiplas crises que colocam em dúvida e em risco a nossa sobrevivência enquanto espécie.

Sim, o Bitcoin é a “moeda do diabo, muito usadas hoje por vigaristas, traficantes de drogas, negociantes de órgãos humanos retirados de miseráveis que não têm outra coisa para vender e por contrabandistas e fraudadores de impostos” e a sombra do desastre que ela lança sobre a terra tem dimensões bíblicas. Até o Papa Francisco já a condenou como a moeda por excelência do capital especulativo, assinala Assis.

Aqueles que pensam o contrário e enxergam algum valor na dimensão tecnológica dos criptoativos, “essas moedas anônimas, sem garantia dos Estados”, estão enganados, diz o autor. Não há nada que os sustente além do risco a ser potencializado pela especulação em um grau difícil de ser imaginado.

Assis apresenta-se como o iluminado capaz de antevê-lo como que por iluminação divina. Ele próprio questiona a ousadia de afirmar que as criptomoedas vão virar pó diante do momento atual de recuperação do mercado em que as perdas das primeiras semanas de setembro estão sendo amplamente revertidas.

Segundo ele, a recente recuperação do ativo ainda não foi suficiente para cobrir todas as perdas. Verdade, mas a esse argumento pode-se facilmente contrapor a métrica que indica a quantidade de Bitcoin em circulação hoje cujos detentores estão no lucro. De acordo com o último boletim da Glassnode, 86,6% dos Bitcoins foram comprados a preços inferiores ao da cotação atual.

Assis insiste, principalmente porque em “toda onda especulativa, em todos os tempos, há sempre um repique de revalorização nos Assis imediatos ao desastre original.”

Se Assis remontasse ao pecado original de Satoshi Nakamoto, cuja criação continha apenas uma promessa e nenhum valor real, saberia que a volatilidade é algo intrínseco à natureza do Bitcoin, mas saberia também que a “moeda do diabo” valorizou-se mais de 75.000% desde a primeira vez que formou par com o dólar e assumiu sua cotação inaugural.

Depois do aspecto teológico das criptomoedas, Assis traça o paralelo clássico com o mercado financeiro tradicional para afirmar que as ações tangenciam a realidade objetiva. Ainda assim, produto de um julgamengo subjetivo, segundo ele, pois uma ação não vale “pelo pedaço da empresa que ela representa, e sim pelo que seu portador acha que ela vale.”

A diferença, afirma Assis, é que no caso do mercado financeiro tradicional, a “aposta” tem algum lastro. No caso das criptomoedas, “a ação negociada sob a forma de uma moeda virtual não vale absolutamente nada, exceto o que está na cabeça do especulador.”

“Sendo um valor puramente subjetivo, não há nada a sustentá-lo. “Apenas pó. Se é fundamentalmente pó, nas crises reais ao pó voltam!”, escreve. 

O cerne da questão encontraria-se na encruzilhada contemporânea em que economia e moralidade se cruzam. Segundo Assis, é o capitalismo neoliberal criticado por Satoshi Nakamoto no bloco gênsis do Bitcoin que garantiu a sustentação das criptomoedas ao longo dos últimos doze anos.

Um sistema desregulado necessita de um refúgio seguro para o dinheiro ilegal – mais uma vez o diabo está à espreita – e aí residiria o valor fundamental das criptomoedas e a justificativa para a crescente capitalização desse mercado.

De acordo com Assis, o Bitcoin seria anônimo e irrastreável, quando este é um mito há muito derrubado. (Perdoe-o senhor, ele não sabe o que diz.) O próximo argumento é mais mundano, mas nem por isso novo. O Bitcoin seria uma pirâmide financeira:

“Na realidade, todos que aplicam nessas moedas virtuais intuem que são vulneráveis, ma apostam que alguém quebra primeiro e ele sai a tempo de evitar a própria quebra. A quebra se caracteriza quando não há demanda pela moeda. A lógica de toda pirâmide financeira, um crime tipificado no Código Penal, é idêntica à da Bitcoin. Ganha quem primeiro entra e  primeiro sai do mercado especulativo.”

Em seguida, Assis faz menção ao famigerado “Faraó dos Bitcoins” e aos seus R$ 38 bilhões de dinheiro ilícito. Montante este, aliás, que o próprio Assis reconhece que a Justiça foi capaz de bloquear. Mas não lhe pergunte como! 

A prisão de Glaidson Acácio dos Santos teria sido o alerta para o desabamento do mercado de criptomoedas, independentemente da crise desencadeada pelas dívidas da construtuora chinesa Evergrande, afirma Assis: 

“Quando disse que essa fraude era suficiente para fazer o mercado de moedas virtuais desabar, um economista cético me contradisse: não, você está enganado. O mercado de bitcoin é gigantesco. Essa quantia não tinha escala para abalar o conjunto. Respondi com a metáfora conhecida da Teoria do Caos: um borboleta que bate ases na Argentina provoca um furação na Califórnia.”

De fato, nem a “Operação Kryptos” nem a ameaça de insolvência da Evergrande parecem ter sido suficientes para que a profecia de Assis se realizasse. Perdidas as esperanças na mão invisível do mercado e na supremacia divina do bem contra o mal, só resta apelar ao poder estatal para parar a “moeda do diabo”.

Mas diante de tantas e nomeadas crises – energética, ambiental, hídrica, econômica, de segurança pública e institucional -, não era mesmo de se esperar que o presidente Jair Bolsonaro pudesse tomar alguma medida contra o Bitcoin. Porém, para Assis, é justamente o ativo digital que vai desencadear o Armagedon:

“Daí conclui-se que uma crise limitada no mercado de bitcoins contamina outras moedas virtuais, e estas, o mercado de moedas comuns e os mercados  reais. É mais do que uma tempestade perfeita. É o caos absoluto. Uma tempestade perfeita passa e tudo volta ao normal. Já uma crise aguda de interação entre mercados objetivos e subjetivos se estende indefinidamente no tempo.”

Para Assis, não há reconciliação possível entre a enconomia real e a esfera especulativa das criptomoedas, a não ser através da expansão da atividade produtiva em paralelo à fuga de capital do mercado de ativos digitais.

O próprio Assis reconhece: o Banco Central só tem uma arma para tentar conter o apetite dos investidores: aumentar a taxa de juros, cujo efeito prático, nesse caso, é deprimir a economia local. Até hoje não houve nenhuma evidência de que exista qualquer correlação entre a taxa de juros no Brasil e o preço do Bitcoin.

O círculo está se fechando e restam poucas opções de salvação para a economia real. Assis apela à intervenção chinesa para regular o seu mercado imobiliário, epicentro de uma iminente crise de proporções globais, e, por consequência, inadvertidamente salvar o capitalismo especulativo do Ocidente. Ele admite, no entanto, que esta não é uma perspectiva razoável.

Assim, por exclusão – e crença na justiça divina -, a última esperança do economista temente a Deus é que a esfera financeira especulativa (leia-se o mercado de criptomoedas) vire pó. Não por uma contingência do mercado, mas sim por uma maldição rogada pelo Papa Francisco.

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Fonte: cointelegraph.com.br

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