Colapso da Terra (LUNA) é o mais novo fracasso na história das stablecoins algorítmicas


Vítima de uma falha estrutural ou de um ataque deliberado, não importa: o destino da stablecoin algorítmica do protocolo Terra (LUNA) parece ter falhado miseravelmente assim como outros projetos da mesma natureza antes dela. A diferença, porém, é o tamanho da queda – fato que torna improvável que a TerraUSD (UST) possa se recuperar.

Até o último domingo, 8, o UST era a terceira maior stablecoin em capitalização do mercado, com US$ 18,6 bilhões – e a sua contraparte, o LUNA, uma das raras moedas do top 10 a alcançar novas máximas históricas em 2022, registrava um desempenho recente superior à média de um mercado em tendência de queda.

No instantâneo do último domingo, ambas estavam entre as 10 maiores criptomoedas em termos de capitalização de mercado. O LUNA na nona posição e o UST na décima, mas, àquela altura, já havia algo de podre no reino de Do Kwon, o CEO do Terraform Labs, responsável pelo ecossistema Terra.

Nas últimas 48 horas, o mercado assistiu à queda do ecossistema Terra a níveis absolutamente surpreendentes. Nesta quarta-feira, 11, o LUNA chegou a ser negociado a US$ 0,69, 99% abaixo da máxima histórica de US$ 119,18, alcançada em 5 de abril, pouco mais de um mês atrás.

No final da manhã desta quarta-feira, virou instrumento de especulação para investidores experientes, que parecem estar se aproveitando de sua fragilidade para obter lucros expressivos, abandonado-a assim que a volatilidade voltar a empurrá-la para o vermelho.

Nas últimas duas horas, o LUNA chegou a valorizar 965%, saltando de 0,73 para US$ 7,78. Embora seja impossível cravar um instantâneo de preço do ativo, no momento em que este texto está sendo escrito, o token está novamente em queda, cotado a US$ 1,61, de acordo com dados do CoinMarketCap.

Gráfico de 1 hora LUNA/USDT. Fonte: Trading View

O UST alcançou graus de instabilidade raros mesmo para o sombrio histórico das stablecoins algorítmicas. Depois de perder a paridade com o dólar no fim de semana, a TerraUSD mergulhou até US$ 0,22 na manhã desta quarta-feira – uma variação negativa de 78% em relação ao seu preço alvo. Também alvo de especuladores e de alta volatilidade, a stablecoin está cotada a US$ 0,68 no momento, de acordo com dados do CoinMarketCap.

Gráfico de 1 hora UST/USDT. Fonte: Trading View

Diante de tamanhas perdas – tanto de valor quanto de confiança no ecossistema – o contestado mecanismo de arbitragem criado para manter a estabilidade do UST parece absolutamente comprometido, apesar dos esforços da comunidade para restaurá-lo.

O mecanismo de resgate de 1 UST por US$ 1 em LUNA já mostrara-se problemático anteriormente em momentos de liquidações generalizadas no mercado. Apesar do alerta dos críticos, somente após os eventos catastróficos dos últimos dias ficou evidente que a lógica econômica da stablecoin baseava-se apenas na fé na resiliência do LUNA, já que, por design, a moeda não possuía reservas suficientes para garantir a paridade com o dólar diante de cenários extremos.

As reservas em Bitcoin (BTC) acumuladas às pressas até horas antes do evento que desencadeou o caos na Terra não foram suficientes para evitar o pior. O despejo do Bitcoin no mercado aprofundou as perdas tanto do LUNA quanto do UST e parecem ter provocado um efeito sistêmico que desequilibrou ainda mais um mercado já fragilizado pelo cenário macroeconômico.

Enquanto as perdas ainda seguem por ser totalmente contabilizadas e o recrudescimento do cerco regulatório às stablecoins torna-se definitivamente inevitável, a pergunta que fica é se o drama do UST terá sido o capítulo final das stablecoins algorítmicas.

Talvez não exatamente por determinação e vontade dos desenvolvedores, visto que projetos baseados no modelo da Terra seguem em circulação e em desenvolvimento. Mas sim porque a derrocada do protocolo DeFi (finanças descentralizadas) mais hypado dos últimos tempos, com sua promessa de rendimentos anuais fixos em torno de 20% sobre o UST mantido em staking no Anchor Protocol (ANC), possa sepultar de vez a confiança do mercado em um experimento que parece ser programado para falhar.

Pelo menos até agora, é isso que a histórias nos diz.

Breve história das stablecoins algorítmicas

O UST é uma stablecoin algorítmica fracionária. Em resumo, este modelo funciona através de algum tipo de mecanismo de compra e venda de mercado para manter a paridade com o ativo subjacente. Como ficou evidente agora, o problema deste modelo é que, em última análise, ele depende de sempre haver compradores do outro lado do balcão. Porém, quando o mercado perde a confiança em um ativo, isso geralmente resulta em uma espiral de morte.

No caso do UST, tudo começou quando uma grande quantidade de UST foi vendida em alguns dos principais pools de liquidez do protocolo descentralizado Curve (CRV). Associada à queda do mercado e ao baixo volume de negociação típico dos finais de semana, esta liquidação massiva provocou a perda da paridade do UST com o dólar. 

Embora pequeno, o desvio fez com que parte dos detentores do UST utilizassem o mecanismo de conversão da Terra para trocar a stablecoin por LUNA. Como efeito colateral, houve um aumento do suprimento em circulação do LUNA no mercado, gerando pressão de venda sobre o ativo e provocando sua enorme desvalorização. Na falta de compradores, o sistema entrou em colapso.

“Aqueles que não aprendem história estão condenados a repeti-la”, diz um ditado popular de autoria desconhecida. No caso do mercado de criptomoedas, esta história começa em 2017, no auge do penúltimo ciclo de alta do mercado, conforme relata reportagem do The Defiant. A ascensão da Terra teve início no começo de 2021, mas foi apenas na segunda metade do ano que o LUNA tornou-se uma das dez maiores criptomoedas do mercado. Coincidência?

Basis

Criado originalmente como Basecoin, o Basis foi um dos primeiros experimentos no campo das stablecoins algorítmicas. O projeto nasceu em agosto de 2017 e contou com financiamento de fundos de capital de risco eminentes do mercado de criptomoedas, como o a16z.

O modelo econômico do Basis baseava-se na emissão de títulos e ações tokenizadas que seriam usados para controlar a emissão e o suprimento do token. Investidores seriam incentivados a comprar ou queimar BAC para manter a paridade do token com o dólar.

Antes do lançamento, os reguladores entraram em ação e classificaram os tokens como títulos, exigindo que o projeto implantasse políticas de reconhecimento de seus clientes (KYC), coletando informações detalhadas de antemão para posteriormente emitir os tokens aos investidores credenciados.

A intervenção inviabilizou o lançamento do projeto e os fundos levantados pelo projeto foram devolvidos aos investidores.

Empty Set Dollar (ESD)

O Empty Set Dollar nasceu em 2020 durante na esteira do verão DeFi, apresentando-se como uma stablecoin algorítmica cuja função seria atuar como uma moeda de reserva para instrumentos de finanças descentralizadas.

O design econômico do protocolo foi inspirado no Basis e foi lançado por uma equipe que optou por se manter anônima, supostamente para evitar o mesmo destino do projeto que lhe serviu de inspiração.

O ESD mantinha a paridade com o dólar emitindo tokens adicionais quando seu preço subia acima de US$ 1 para aumentar a oferta e diluir o valor dos tokens já circulantes. Em contrapartida, incentivava os usuários a queimar seus tokens em troca de títulos de dívida quando o preço caísse abaixo de US$ 1, gerando escassez no mercado e, consequentemente, reequilibrando a indexação com o dólar. Por sua vez, os títulos poderiam ser resgatados quando o ESD apresentasse variação positiva.

O mecanismo nunca funcionou exatamente como o planejado e em sua curta história, a volatilidade foi a principal característica do ESD. De novembro a dezembro de 2020, a stablecoin flutuou livremente em um intervalo entre US$ 0,89 e US$ 1,63. Na virada do ano o ESD estava cotado a US$ 0,85, já no movimento descendente de uma espiral de morte que o derrubou abaixo de US$ 0,03 antes da metade do ano.

Gráfico histórico do ESD. Fonte: CoinMarketCap

Basis Cash (BAC)

Como é comum na indústria, o lançamento do Empty Set Dollar inspirou um projeto semelhante, idealizado por uma dupla de desenvolvedores pseudônimos identificados como Rick & Morty.

O Basis Cash previa a distribuição de BAC para usuários que bloqueassem stablecoins como DAI e USDC no protocolo. Em contrapartida, títulos e ações tokenizadas eram emitidas como instrumento para controlar o suprimento e estimular a queima de tokens para manter a paridade do BAC.

O BAC nunca chegou a ser realmente estável e chegou a disparar até US$ 154,97 até perder 90% do seu valor de face ao longo do primeiro semestre de 2021.

Gráfico histórico do BAC. Fonte: CoinMarketCap

Ampleforth (AMPL)

O Ampleforth é uma criptomoeda algorítmica cujo suprimento em circulação é controlado por códigos de programação. Em tese, o valor do AMPL é imune à oferta inflacionária, além de manter-se descorrelacionado da ação de preço de outras criptomoedas – e do Bitcoin em particular.

Os detentores do AMPL possuem uma fração fixa do fornecimento total de AMPL em circulação, e não um número fixo de tokens. Quando o algoritmo detecta que o preço da AMPL está muito alto, ele aumenta a oferta circulante, ao passo que a oferta é reprimida quando o preço está muito baixo.

Sempre que há uma alteração na cotação do AMPL, todos os tokens presentes em carteiras Ampleforth têm seu saldo ajustado proporcionalmente. Independentemente da mudança do valor de face, os detentores do AMPL seguirão tendo a mesma porcentagem do estoque em circulação. Ou seja, o suprimento se ajusta ao valor – e não o contrário, como é mais comum.

Esse processo de ajuste automático de oferta é conhecido como “rebase”, ou rebalanceamento, e ocorre uma vez por dia. O rebalanceamento é positivo se o preço ficar acima de US$ 1,06 ou negativo se ficar abaixo de $ 0,96. O objetivo geral do sistema é criar incentivos que levem o preço de mercado da AMPL de volta em torno de US$ 1.

No entanto, logo depois do seu lançamento, em meados de 2019, as oscilações de preço sugeriram que se tratava de mais um projeto destinado ao fracasso. Em três meses, o AMPL chegou a cair para US$ 0,40. Mas os desenvolvedores conseguiram reerguê-lo e entre novembro de 2019 e fevereiro de 2020 o token manteve-se dentro do limite originalmente previsto.

Com a alta do mercado a partir do segundo semestre de 2020, a A AMPL voltou a oscilar fora do intervalo previsto, entre US$ 2 e US$ 0,70. Ainda assim, não se pode dizer que se trata de um ativo propriamente estável.

Gráfico histórico do AMPL

Desde 2021, a volatilidade foi mantida em um limite mais estreito, com variações de 30% acima e abaixo de US$ 1. Esta semana, na esteira dos eventos dramáticos que assolaram o ecossistema da Terra, o AMPL valorizou 7%. Ainda que tenha sido uma variação positiva, o token não parece apto a cumprir a função para a qual foi criado.

Neutrino USD

O Neutrino USD (USDN) é o primeiro projeto de stablecoin algorítmica derivado do modelo criado pela Terra a ganhar tração no mercado. A emissão do Neutrino Dollar se baseia na queima do token Waves (WAVES), assim como o UST está para o LUNA.

Lançado na rede Waves em fevereiro deste ano, o USDN logo acabou envolvido em um lance cheio de intrigas e acusações de manipulação do mercado, provocando uma desvalorização abrupta do WAVES. Como resultado, o USDN perdeu a sua paridade com o dólar em 34% em 4 de abril, quando chegou a cair para US$ 0,66. 

A queda do WAVES teve início a partir da denúncia de um analista pseudônimo que acusou o protocolo de inflar artificialmente o preço do token por pelo menos dois meses, período em que o token chegou a atingir uma valorização de 750%. Em seguida, o acusador afirmou ainda que uma queda ainda mais drástica do WAVES provocaria a insolvência do USDN.

Apesar do revés, o USDN conseguiu recuperar boa parte do seu valor. No entanto, jamais recuperou totalmente sua indexação, e vinha sendo negociado entre US$ 0,95 e US$ 0,99 desde então.

Agora, ao que parece, o efeito Terra está se fazendo sentir no ecossistema WAVES. Nesta quarta-feira, o USDN opera em queda de 6,8%, cotado a US$ 0,89. A recente desvalorização do Neutrino USD é mais um sinal de que a confiança do mercado em stablecoins algorítmicas foi severamente abalada.

Gráfico diário USDN. Fonte: CoinMarketCap

Aliás, por ocasião da perda da paridade do USDN com o dólar, o Cointelegraph Brasil publicou uma reportagem alertando para os riscos de que um evento semelhante poderia ocorrer, derrubando o UST e o LUNA.

Resta ver o que o futuro guarda para outras duas stablecoins algorítmicas lançadas recentemente. Por enquanto o USDD, da Tron (TRX), e o USN, do Near Protocol (NEAR) não foram abalados e se mantém acima de US$ 0,99, mas suas respectivas capitalizações de mercado ainda são pouco significativas para oferecer um vislumbre consistente sobre o destino das stablecoins algorítmicas.

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Fonte: cointelegraph.com.br