A tecnologia blockchain nas indústrias de mineração e na gestão de cadeias de suprimentos



A indústria de mineração é uma das mais antigas e tradicionais do planeta, e com ela se conservam costumes igualmente antigos e tradicionais. Um deles é a forma como são realizadas as vendas e transações internacionais. Estes acordos envolvem valores milionários, mas ainda são predominantemente dependentes de contratos, documentos de exportação e cartas de crédito impressas em papel. Contudo, esse cenário vem mudando com a ajuda da tecnologia blockchain

Grandes empresas mineradoras começaram, em 2020, a fazer uso de plataformas de validação em blockchain para formalizar seus processos de venda e fornecimento. O recurso é disponibilizado em associação com grandes bancos internacionais, e o processamento é feito inteiramente online. 

Essa nova modalidade vem se consolidando especialmente entre as exportadoras de minério de ferro, e espera-se que mais empresas sigam a tendência nos próximos anos. A seguir, analisaremos as motivações e consequências da aplicação da tecnologia blockchain no setor de indústrias de produção e de base, com atenção especial às indústrias de mineração. 

O uso de blockchain na gestão de cadeias de suprimentos

A aplicação de tecnologia blockchain por indústrias de mineração se dá na gestão de cadeias de suprimentos, com o objetivo de facilitar processos.

Nos últimos anos, esse ramo do mercado tem investido muito em modernizações. A tecnologia blockchain foi rapidamente reconhecida como uma solução altamente compatível com sistemas logísticos e de fornecimento de produtos. Em 2017, ela já estava avaliada em US$ 40,9 milhões no mercado de gestão de cadeias de suprimentos. Em 2019, 24% das indústrias de produção estavam implementando (ou tinham planos de implementar) soluções em blockchain. A projeção de crescimento, conforme a Business Wire, é de US$ 253 milhões em 2020 para US$ 3 bilhões em 2026.

As principais vantagens obtidas pela aplicação logística são:

● Otimização e redução de custos operacionais;

● Aumento da confiabilidade e transparência dos registros;

● Facilitação e até automação da gestão de estoques em depósitos, com a possibilidade de registro único individual de produtos através de códigos em blockchain. 

No caso do fornecimento e compra de suprimentos, o impacto da tecnologia é ainda mais crítico. Esses processos demandam um alto nível de transparência, consistência e confiabilidade, o que costuma requerer até três níveis de intervenção intermediária e elevar tanto os custos quanto a complexidade.

Plataformas blockchain permitem a criação de propostas inteligentes para o processo de vendas e frete. Essas aplicações são transparentes, digitais, confiáveis, permitem transações financeiras quase instantâneas e facilitam a gestão estratégica das relações de fornecimento. 

Algumas das multinacionais que já fazem uso da tecnologia são Walmart, Carrefour, Nestlé e Dole, em parceria com a rede blockchain IBM.

O uso de blockchain nas indústrias de mineração

O setor de mineração é marcado pela tradição, o que sempre se manifestou na burocracia dos processos logísticos e de fornecimento internacionais. Mas algumas indústrias de mineração também vêm implementando soluções em blockchain motivadas pelos bons resultados alcançados pelos exemplos no setor industrial supracitados.

O processamento manual de documentos financeiros e dos processos de compra e venda de minérios traz diversas desvantagens, as maiores sendo:

● Lentidão;

● Alto risco de erro humano;

● Falta de transparência;

● Altos custos.

O setor de mineração de ferro é especialmente afetado por esses entraves, uma vez que é responsável por negociar volumes muito grandes de material através de extensas redes de stakeholders, incluindo expedição, alfândega, agentes de cargas e transportadoras.

Visando mudar essa realidade, em 2019 três das maiores mineradoras de ferro do mundo lançaram projetos em parceria com a Rede Contour, DBS Bank Ltda. e Standard Chartered Bank Malaysia Berhad, para implementação de sistemas em blockchain. No ano seguinte, elas concluíam suas primeiras transações digitais:

● Em maio de 2020, a anglo-australiana BHP completou sua primeira transação blockchain com a chinesa Baoshan Iron & Steel, no valor de US$14 milhões;

● Em junho de 2020, a australiana Rio Tinto também completou sua primeira transação blockchain com a Baoshan Iron & Steel; 

● Em agosto de 2020, foi a vez da Vale, no Brasil. A operação foi para 176 mil toneladas do produto de minério BRBF, com destino à chinesa Nanjing Iron & Steel Group International Trade Co. Ltda.

Através do novo procedimento, as siderúrgicas e as mineradoras podem negociar os termos da carta de crédito diretamente pela plataforma blockchain da Rede Contour. Ela também permite a apresentação de documentos de forma digital e reduz a necessidade de e-mails, cartas e chamadas de vídeo/telefone.

A transação é facilitada graças à parceria com os bancos associados, gerando-se uma LC (Carta de Crédito) digital que pode ser expedida e descontada em tempo real. 

Uma das preocupações é que seja alcançada uma interoperabilidade total entre as plataformas e parcerias em desenvolvimento, possibilitando uma adoção em larga escala das soluções em blockchain.

A iniciativa ainda representa um pequeno volume, comparada à produção anual das mineradoras. A Vale, por exemplo, tem uma produção de 315 milhões a 335 milhões de toneladas de minério prevista para 2021.

Mesmo assim, essas transações iniciais já são um marco muito importante, e devem se tornar mais frequentes nos próximos anos — assim como as transações pelo aplicativo chinês WeChat, que também já são uma realidade no setor.

Sobre o autor

Fares Alkudmani é formado em Administração pela Universidade Tishreen, na Síria, com MBA pela Edinburgh Business School, da Escócia. Naturalizado Brasileiro. É fundador da empresa Growth.Lat e do projeto Growth Token.



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